sexta-feira, 28 de Agosto de 2009

lgº da cruz de celas, nº 8

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Ena! Levantou-se de repente e foi buscar um guardanapo para limpar a água que lhe saía pela boca. Sonhara acordado. Sonhara com ela. Tinha-lhe saudades, abençoada mulher, a Alzira, que lhe provocava uma rijeza nas partes pudibundas como nunca nenhuma o fizera antes. Logo, à noitinha, já estaria a comer e a beber do melhor. Mais tarde consolaria o corpinho.
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Espreitou a janela e Monção acordara com um maldito nevoeiro que lhe chegava aos ossos. Algumas pessoas já atravessavam a praça – lembrou-se então que era dia de feira. Ia lavar-se e fazer a barba, para se pôr a caminho que o trabalho de travelling salesman não dava para descansar. Nunca chegou a saber, mas décadas depois a sua profissão fora praticamente extinta, o lugar de caixeiro-viajante era substituído por promotores, por catálogos e por vendas on-line.
O pão estava como ele gostava – tostadinho. Marmelada, manteiga… c’um caraças, tanta mordomia. Ontem tivera que lhe zupar, já andava há muito a arrebitar cachimbo. Levou duas lamparinas que até andou de lado. Afinal tinha valido a pena. O pequeno almoço estava como nunca. Uma vez até teve que lhe bater no dia de Páscoa, mas ela pediu, carago! – Só devo voltar lá para o fim de mês, ouviste?
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Quando chegou ao Porto, foi aos Correios ao pé da Câmara e telefonou.
- a dona Alzira está?
- quem fala?
- daqui é o homem das batatas.
Ó Zé, Zééé, a dona Alzira está? – mas que canseira para o Zé, ter que responder. Mais parecia um alentejano com tamanha preguiça, apesar de ser um beirão de gema. Mais tarde deveria distinguir-se em psiquiatria, especialidade que, segundo ele, só dava trabalho a nível do intelecto, logo teria pouco que se mexer.
- parece que foi ao talho. um momento. está a chegar alguém
Já lhe ouvia a respiração ofegante. Imaginou logo aquelas coxas no meio das meias pretas, enfeitadas pelo ligueiro de rendas, que lhe oferecera. Já meio excitado, limpou a pedra do anel do mindinho (já não era espelhada como outrora). Ela deveria estar a levar as compras para a cozinha. Esperou enquanto aproveitava para limpar a cera acumulada no ouvido.
- estou sim?
- Alzira, minha flor. hoje vou aquecer-te os pés – disse dengoso.
- ai és tu, Silva?!
Foi breve a conversa. As chamadas eram caríssimas e contadas por períodos.

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A dona Alzira tinha um casarão, no centro de Coimbra, herança dos pais há muito falecidos. Não casara. Dizia que não estava para aturar homens, mas a realidade é que tinha sido enganada por um doutor. Desflorou-a prometendo aliança no dedo, mas quando acabou a formatura, foi-se para a capital deixando-a de rastos. Começou a alugar quartos aos estudantes pois tinha o privilégio da casa ficar perto das faculdades.
Um dia, bateu-lhe à porta um caixeiro-viajante a perguntar onde ficava a rua Nicolau Chanterenne. Era um daqueles dias de Verão, em que Coimbra fica irrespirável. O desgraçado tinha a camisa colada ao corpo. Ofereceu-lhe um copo de água fresca. A casa estava vazia do tumulto estudantil. Todos tinham partido para férias. Disse-lhe para entrar e sentar-se na sala
Ele sentou-se no sofá.
Mais tarde deitou-se na cama
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A pensão Flor de Coimbra perdera um cliente.


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quarta-feira, 12 de Agosto de 2009

subsídios

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- Sou muito homem, ouviste, ó cabrão? Isto é uma passadeira!
Já não era ouvido mas continuou a barafustar com o condutor do BM que lhe tinha chamado paneleiro depois de não respeitar o vermelho. O sinal verde abriu, e de repente, ficou sem público. Até ele atravessou a rua enquanto ainda olhava na direcção do carro que se tinha perdido no meio do caótico trânsito da cidade. Ao passar pelo quiosque perdeu-se nas parangonas dos desportivos e meio de esguelha olhou as capas das playboys mas nenhuma era recente. Já conhecia todas, não que as comprasse, mas tinha ido ao barbeiro a semana passada e lera-as à borliú. Ler, ler, também não. As imagens valiam por si só e não necessitavam de comentários.
Deitava-se tarde. Ficava-se pelo Café Zip até às tantas. Hoje era madrugada para ele, ainda não eram nove e a cidade já estava a aquecer. Passou pela montra da Zara e mirou-se. Gingava o corpo enfiado na melhor roupa que tinha. Deu um jeito às calças e arranjou o material – detestava aquelas cuecas que tinha comprado nos ciganos, eram assim para o largo e ficava com o material todo a bambolear. Dobrou a esquina e viu logo que não era o seu dia de sorte. A fila já levava uns 10 metros. – Raios partam isto tudo. Se calhar não ia ser atendido de manhã. Quando a repartição abriu entregaram as senhas de ordem. Era o 37. ‘Dasssssss, detestava aquele número. Era o da casa da Amélia, a primeira namorada que queria casar com ele e estava grávida do filho da ti Gusta.
- 37. Trinta e sete!
Pôrra, era ele. Ergueu o braço e entregou a senha.
Se tinha disponibilidade para uma possível experiência. Pois claro que tinha. Se não trabalhava, estava disponível, raio de pergunta. Habilitações? – Fui até ao 6º. Muito bem, ficamos com os seus dados, estão a meter pessoal para o turno da noite, caso surja algo telefonamos. – Para o turno da noite?, não a essa hora não posso.
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- Então, foste atendido?
- Não.
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quarta-feira, 10 de Junho de 2009

a catequese

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Amanhã é um dia católico, aproveita e vai à missa, Disse ele, à missa?, de repente imaginou-se no tempo em que tinha de “cumprir missa”.
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Más memórias, as da catequese, talvez até…nem boas nem más…mas por não serem boas ou nutridas de qualquer interesse, fizessem delas um tempo obsoleto – para ela, claro.
Caliginosas horas essas. Havia sempre o indicador apontado, nascido num corpo, de cinzentas claras em castelo, que emergia do céu e tinha sempre cara de poucos amigos.
Intocável, o filho, era bem-vindo com um duvidoso “deixai vir a mim as criancinhas”, se fosse hoje levava com um processo tipo casa Pia, por causa das tosses.
Perfeccionista o designer, havia de desenhar sempre a rodela em cima do cálice, milimétrica/mente ao centro, nem mais à esquerda nem mais à direita – centrista q.b., (podia ser colocada de lado, como as rodelas de citrinos, levar uma palhinha e….um on de rocks (?) – why not?), ah e era florescente.
Até que era interessante o sabor da rodela. Obrigava-a a ir em jejum, difícil de entender essa privação, talvez causasse indigestão, chegou a comprar na papelaria Livrália, esquina da a 23 com a 16, enormes e rectangulares.
Estudava-se a trilogia do pai do filho (e todo o séquito de amigos, sempre apresentados com aureolas resplandecentes, em corpos anémico–anorécticos) e de um espírito santo
Naquele tempo…., naquele tempo… já se engravidava artificial/MENTE, e a mãe era de um branco-cera, com ar proselítico, e tinha sempre a cara ligeiramente inclinada.
Pregava-se a harmonia e a igualdade mas havia uma grande distinção entre os filhos de alguns e os filhos dos outros, mais o amor e o pecado (?), pecadoras essas crianças….pecavam tanto.
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É, a missa era mais ou menos tudo isso, Disse ela….


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quarta-feira, 27 de Maio de 2009

a visita

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Sempre impecavelmente aprumada, outrora andaria numa azáfama, entre a loja, que ficava na frente da casa, e os afazeres domésticos.

Recebia-nos com alegria, mas não nos dava prioridade, primeiro estava o negócio.

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Tudo estava irreconhecível. Agora tínhamos que ultrapassar várias rotundas até chegar à aldeia. Foi bom a Ró ter ido comigo. Nas entrelinhas dos seus profundos suspiros de “ai-meu-deus”, dava-me instruções: vira aqui, vira ali - caso contrário ter-me-ia perdido.

O jardim da frente da casa também estava encurtado, por causa da estrada. Ainda bem que sobrara espaço para manter as roseiras.

Recuei no tempo.

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Às vezes conseguimos recuar no tempo e ficarmos inocentes. Conseguimos imaginar que tinha sido bom ali. Noutra altura teria conseguido recuar até àquela tarde de férias de verão quente.

A igreja ainda era visível dali.

Sentamo-nos todos à roda de uma mesa no jardim. Havida limonada fresca, com água do poço. O som das rolas chegavam até nós, pena que o das galinhas também.

Os pátios tinham sido regados com água para tornar tudo mais fresco, Depois do fausto almoço, e sem vontade para lancharmos, havia quem já se atrevesse a elaborar a ementa do jantar. Depois de algumas sugestões eliminadas conseguiu-se reduzir o menu para uma salada russa (que iria ser servida bem fria) com uns filetes de pescada fresca. Para a sobremesa haveria pão-de-ló e melão fresco.

Fui muito feliz naquela casa.

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Recuei no tempo e senti pesar.

Abrimos o portão, torneamos a casa.

A empregada tratava da roupa e disse – ela hoje está melhorzinha, já desceu mas subiu de novo.

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Quando me viu, no seu ar canónico tentou esboçar um sorriso de alegria. Talvez até fosse um grande sorriso, já não tinha força para o transmitir por esgar.

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para O.

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sábado, 21 de Março de 2009

nocturno

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Fazia aquela esquina há três anos.
Melhor estar ali que no Jardim das Glicínias. Ali era mais abrigado. Para não falar na clientela. Era tudo do melhor. Bom, o Hotel era de seis estrelas e como as acompanhantes não chegavam para todos sobrava sempre para ela.
Tinha mesmo sorte em estar ali.
Às vezes o porteiro fazia-lhe sinal para ela desandar, mas depois de lhe ter dado uma de borla começou a fechar os olhos – porco do caraças.
O ar estava abafado. Levantou-se e abriu a janela, sendo de imediato invadida pelo barulho ensurdecedor da tarde na cidade.
Olhou-se ao espelho e tinha mais uma mancha.
Andava desconfiada do que era aquilo, mas tinha vergonha de ir ao médico de família.
Hoje, para poupar água não tomaria banho. Poupava água e gás, estava tudo pela hora da morte.
Agora vivia cansada. Acordava cansada. Adormecia cansada. Trabalhava cansada.

Fez um chá preto e carregou-o de mel, era dos poucos prazeres que tinha hoje em dia. De seguida enrolou um charro e fumou-o.
A cama ia ficar assim. Ainda estava molhada daquela maldita transpiração nocturna.
Pôs creme e base na cara e começou a pintura. Um dia destes tinha de comprar pestanas novas e o batom estava nas últimas. Carregou ainda mais na cor. Gostava de sobressair os lábios carnudos.
Os homens gostavam.


Contou os trocos. Ainda tinha de passar pelo hipermercado para comprar a merda das camisinhas. Alguns faziam-se esquecidos, outros….faziam-se esquisitos. Agora também…..a ela não lhe fazia diferença.
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