Quarta-feira, 10 de Junho de 2009

a catequese

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Amanhã é um dia católico, aproveita e vai à missa, Disse ele, à missa?, de repente imaginou-se no tempo em que tinha de “cumprir missa”.
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Más memórias, as da catequese, talvez até…nem boas nem más…mas por não serem boas ou nutridas de qualquer interesse, fizessem delas um tempo obsoleto – para ela, claro.
Caliginosas horas essas. Havia sempre o indicador apontado, nascido num corpo, de cinzentas claras em castelo, que emergia do céu e tinha sempre cara de poucos amigos.
Intocável, o filho, era bem-vindo com um duvidoso “deixai vir a mim as criancinhas”, se fosse hoje levava com um processo tipo casa Pia, por causa das tosses.
Perfeccionista o designer, havia de desenhar sempre a rodela em cima do cálice, milimétrica/mente ao centro, nem mais à esquerda nem mais à direita – centrista q.b., (podia ser colocada de lado, como as rodelas de citrinos, levar uma palhinha e….um on de rocks (?) – why not?), ah e era florescente.
Até que era interessante o sabor da rodela. Obrigava-a a ir em jejum, difícil de entender essa privação, talvez causasse indigestão, chegou a comprar na papelaria Livrália, esquina da a 23 com a 16, enormes e rectangulares.
Estudava-se a trilogia do pai do filho (e todo o séquito de amigos, sempre apresentados com aureolas resplandecentes, em corpos anémico–anorécticos) e de um espírito santo
Naquele tempo…., naquele tempo… já se engravidava artificial/MENTE, e a mãe era de um branco-cera, com ar proselítico, e tinha sempre a cara ligeiramente inclinada.
Pregava-se a harmonia e a igualdade mas havia uma grande distinção entre os filhos de alguns e os filhos dos outros, mais o amor e o pecado (?), pecadoras essas crianças….pecavam tanto!!!!
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É, a missa era mais ou menos tudo isso, Disse ela….


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Quarta-feira, 27 de Maio de 2009

a visita

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Sempre impecavelmente aprumada, outrora andaria numa azáfama, entre a loja, que ficava na frente da casa, e os afazeres domésticos.

Recebia-nos com alegria, mas não nos dava prioridade, primeiro estava o negócio.

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Tudo estava irreconhecível. Agora tínhamos que ultrapassar várias rotundas até chegar à aldeia. Foi bom a Ró ter ido comigo. Nas entrelinhas dos seus profundos suspiros de “ai-meu-deus”, dava-me instruções: vira aqui, vira ali - caso contrário ter-me-ia perdido.

O jardim da frente da casa também estava encurtado, por causa da estrada. Ainda bem que sobrara espaço para manter as roseiras.

Recuei no tempo.

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Às vezes conseguimos recuar no tempo e ficarmos inocentes. Conseguimos imaginar que tinha sido bom ali. Noutra altura teria conseguido recuar até àquela tarde de férias de verão quente.

A igreja ainda era visível dali.

Sentamo-nos todos à roda de uma mesa no jardim. Havida limonada fresca, com água do poço. O som das rolas chegavam até nós, pena que o das galinhas também.

Os pátios tinham sido regados com água para tornar tudo mais fresco, Depois do fausto almoço, e sem vontade para lancharmos, havia quem já se atrevesse a elaborar a ementa do jantar. Depois de algumas sugestões eliminadas conseguiu-se reduzir o menu para uma salada russa (que iria ser servida bem fria) com uns filetes de pescada fresca. Para a sobremesa haveria pão-de-ló e melão fresco.

Fui muito feliz naquela casa.

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Recuei no tempo e senti pesar.

Abrimos o portão, torneamos a casa.

A empregada tratava da roupa e disse – ela hoje está melhorzinha, já desceu mas subiu de novo.

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Quando me viu, no seu ar canónico tentou esboçar um sorriso de alegria. Talvez até fosse um grande sorriso, já não tinha força para o transmitir por esgar.

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para O.

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Sábado, 21 de Março de 2009

nocturno

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Fazia aquela esquina há três anos.
Melhor estar ali que no Jardim das Glicínias. Ali era mais abrigado. Para não falar na clientela. Era tudo do melhor. Bom, o Hotel era de seis estrelas e como as acompanhantes não chegavam para todos sobrava sempre para ela.
Tinha mesmo sorte em estar ali.
Às vezes o porteiro fazia-lhe sinal para ela desandar, mas depois de lhe ter dado uma de borla começou a fechar os olhos – porco do caraças.
O ar estava abafado. Levantou-se e abriu a janela, sendo de imediato invadida pelo barulho ensurdecedor da tarde na cidade.
Olhou-se ao espelho e tinha mais uma mancha.
Andava desconfiada do que era aquilo, mas tinha vergonha de ir ao médico de família.
Hoje, para poupar água não tomaria banho. Poupava água e gás, estava tudo pela hora da morte.
Agora vivia cansada. Acordava cansada. Adormecia cansada. Trabalhava cansada.

Fez um chá preto e carregou-o de mel, era dos poucos prazeres que tinha hoje em dia. De seguida enrolou um charro e fumou-o.
A cama ia ficar assim. Ainda estava molhada daquela maldita transpiração nocturna.
Pôs creme e base na cara e começou a pintura. Um dia destes tinha de comprar pestanas novas e o batom estava nas últimas. Carregou ainda mais na cor. Gostava de sobressair os lábios carnudos.
Os homens gostavam.


Contou os trocos. Ainda tinha de passar pelo hipermercado para comprar a merda das camisinhas. Alguns faziam-se esquecidos, outros….faziam-se esquisitos. Agora também…..a ela não lhe fazia diferença.
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Terça-feira, 27 de Janeiro de 2009

i'll be back

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por falta de tempo fez um intervalo.fê-lo em silêncio.
deixou na porta uma placa de agradecimento a todos que a tinham visitado.

prometeu voltar.

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Sexta-feira, 26 de Setembro de 2008

vida pacata

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Levantou-se às sete da manhã sem a ajuda do despertador. Nunca precisara dele.
Agora até se levantava mais tarde, antigamente levantava-se às cinco ou mais cedo ainda.
Eram outros tempos, deixara essa vida. Vida de escravidão. Para quê? Sim, era rico, mas para quê?
Viviam bem, tinham duas empregadas, uma para tratar da casa, que era enorme, e outra, três vezes por semana, para os jardins e as hortas. Podiam fazer férias todos os meses, podiam até fazer outro tipo de vida que nunca gastariam todo o dinheiro que tinham no banco.
Nunca viajara. As férias eram entre as termas de Monte Real e as do Gerês. A mulher é que decidia.
Dependia da saúde. Normalmente iam para o Gerês. Era agradável, faziam-se conhecimentos de uns anos para os outros. A mulher é que não era lá muito sociável. Achava até desnecessário o riso em excesso, a diversão...Não era nada parecida com a irmã que tinha ido morar para o litoral quando casou. Podiam ser pobres mas eram mais alegres.
A vida de feirante gastou-lhe o corpo e a alma. Não que ele não gostasse, aliás, já nem saberia viver de outro modo. Agora que deixara o negócio para os filhos, já nem sabia que voltas havia de dar durante o dia.
Ia até ao pomar. Verificava se as macieiras tinham bicho, dava um jeito às videiras e apanhava uma ou outra fruta já madura.


Antigamente dava a fruta aos empregados que faziam as feiras com ele, agora ninguém queria nada daquilo, todos davam preferência à normalizada/encerada e de tamanho um pouco obeso.
Não descurava também os pombos, dando sempre especial atenção aos mais jovens – os borrachos – pois eram mais sensíveis a doenças.


O cheiro a café acabado de fazer empurrou-o para dentro de casa. A mesa já ficava posta de véspera para o pequeno-almoço. Sempre fora assim. Tudo organizado.
A mulher olhou-o por cima dos óculos e disse: “Já te chamei 2 vezes, não ouviste?”. Que não, que não tinha ouvido.
Tomaram os dois o pequeno-almoço. Ele café com leite e pão com manteiga. Para ela era sempre o chá de hipericão, que trazia do Gerês, acompanhado com torradas.

Quando estava bom tempo ia até ao adro da igreja falar com os amigos. A vontade dele era pegar no carro e ir até à Figueira ou até Espinho, mas a mulher nunca queria. Dizia que ficava dispendiosa a viagem.

Para ela era quase um sacrilégio permitirem-se a esses gozos.


Gostava de ter conhecido a capital, mas foi atraiçoado pela doença.
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